O Legado de Wilson Reis Netto
Março de 1960. Um mês antes da inauguração da nova capital, Wilson Reis Netto fundava o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) no coração do Planalto Central. A data, celebrada em 20 de março, pode parecer insignificante à primeira vista, mas esconde um significado profundo.
A criação de uma instituição de arquitetos em uma cidade ainda em construção — um local que sequer tinha seus órgãos públicos plenamente instalados — ressalta a relevância que os profissionais da arquitetura viam naquele momento histórico. Era a materialização de uma capital projetada do zero, no interior do país; um espaço onde urbanismo, arquitetura, paisagismo e design eram concebidos de maneira integrada e inovadora. Essa liberdade criativa permitiu que Brasília emergisse como um exemplo notável, embora, atualmente, a qualidade na arquitetura e no urbanismo ainda não seja a prioridade que deveria ser no Brasil.
O projeto de Brasília foi selecionado por meio de um concurso público nacional em 1956, momento em que o IAB teve um papel crucial. Contudo, a defesa por essa escolha já havia começado muito antes.
Em 1922, durante a cerimônia de lançamento da Pedra Fundamental da futura capital, a antiga Sociedade Central de Arquitetos — que mais tarde se tornaria o IAB — enviou uma carta ao presidente da Câmara responsável pela mudança da capital. A mensagem era clara: o projeto deveria ser escolhido através de concurso público e a construtora selecionada por licitação.
A fundação de Brasília, inaugurada em 1960 e reconhecida anos depois como Patrimônio Mundial pela qualidade de seu projeto, deve muito a essa luta histórica.
A Influência de Wilson na Cultura Brasiliense
Voltando ao papel de Reis Netto, ele foi uma figura essencial no cenário político e cultural dos primeiros anos em Brasília. Natural do Rio de Janeiro, juntou-se à equipe de Oscar Niemeyer na Novacap e participou de projetos marcantes, como a Escola da 114 Sul. Porém, sua atuação ia além do trabalho técnico; ele se tornou um embaixador da arquitetura na nova capital. Em sua residência na 700 Sul, recebia delegações estrangeiras e artistas locais, estimulando a cultura e promovendo debates significativos.
Um exemplo notável de seu impacto cultural ocorreu em 1961, quando organizou uma festa em sua casa que reuniu o arquiteto nigeriano Augustine Agbor, o mestre Vitalino e o famoso Luiz Gonzaga.
Apesar de sua relevância, a figura de Wilson Reis Netto desapareceu da historiografia brasiliense, inclusive da narrativa do próprio Instituto que ajudou a fundar.
Os Fatores do Apagamento
Dentre as razões para essa invisibilidade, a primeira é a dramática interrupção provocada pelo golpe militar de 1964. A ruptura foi devastadora. A efervescente cena cultural e intelectual de Brasília foi severamente impactada. Profissionais qualificados, atraídos por um projeto coletivo inovador, foram afastados, desmantelando as equipes da Novacap, e o impacto na arquitetura foi catastrófico.
Brasília atraiu arquitetos e artistas pela possibilidade de desenvolver artes em um ambiente propício. Mário Pedrosa descreveu a capital como uma “síntese das artes”, uma cidade projetada onde diferentes campos artísticos eram integrados com um forte sentido de unidade e inovação. Contudo, a ditadura interrompeu esse ciclo criativo.
A Universidade de Brasília (UnB) e a cena artística nunca recuperaram por completo o que foi perdido. A possibilidade de criar arte livremente sob gestão pública foi interrompida — um desafio que ainda é enfrentado hoje.
Uma segunda razão para o apagamento de Reis Netto pode estar relacionada à sua orientação sexual. Embora atualmente haja um maior reconhecimento de figuras como mulheres, populações negras e indígenas na formação de Brasília, pouco se fala sobre outras formas de exclusão. O fato de Wilson ser abertamente homossexual pode ter contribuído para sua marginalização.
Relatos de contemporâneos frequentemente mencionam sua sexualidade antes de destacar suas habilidades profissionais, que incluíam gestão, mobilização e liderança. Contudo, ele se tornou uma figura de influência na arquitetura e na cultura local.
Resgatando a Memória de Wilson Reis Netto
Resgatar a memória de Wilson Reis Netto é um passo fundamental para reconhecer as camadas que foram apagadas da história de Brasília. Isso também nos leva a refletir sobre questões urgentes, como o papel de mulheres, pessoas LGBTQIA+, e populações marginalizadas na construção da cidade e os projetos que ficaram pelo caminho.
Uma proposta de Wilson, já em 1961, era a criação de um centro cultural dedicado à arquitetura, ao urbanismo e ao design em Brasília — um espaço para encontros, debates e exposições. Atualmente, Brasília, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial, não possui um espaço que conte sua história arquitetônica em suas diversas dimensões, nem que exponha a produção contemporânea que, apesar da falta de apoio público e do domínio das grandes construtoras, ainda resiste e se destaca pela qualidade.
Retomar o sonho de Wilson é crucial. Resgatar sua memória significa também reviver o espírito criativo que transformou Brasília em um laboratório de experimentações artísticas sem precedentes no Brasil. É essencial que a capital tenha um espaço para exibir sua arquitetura e urbanismo, tanto do passado quanto do presente, garantindo sua relevância para o futuro.
Na próxima sexta-feira (27), o auditório da FAU da Universidade de Brasília será palco do lançamento do livro “Tempestade Tropical: de Brasília à Praia do Forte — a trajetória de Wilson Reis Netto”, escrito por Alexandre Benoit. A obra promete aprofundar o conhecimento sobre a vida e a obra desse arquiteto que, por muito tempo, ficou à sombra da história.
