Reflexões sobre a Cultura de Violência e o Papel da Sociedade
Recentemente, um dado alarmante chamou a atenção: entre 2022 e 2025, o Brasil registrou cerca de 22.800 casos de estupro coletivo, o que equivale a mais de 15 ocorrências diárias. O cenário é ainda mais sombrio, com 14.4 mil desses casos envolvendo crianças e adolescentes do sexo feminino. Essa realidade evoca uma sensação imediata de medo, uma espécie de alerta instintivo que leva à necessidade de se proteger e se resguardar.
Imediatamente surgem questionamentos importantes: “Em que ponto falhamos?”, “Como nossa sociedade chegou a tamanho descalabro?”. O que se observa não é apenas a convivência com a violência, mas a perpetuação de uma verdadeira cultura do estupro. Para os estudiosos da antropologia, cultura compreende um conjunto de crenças, valores e práticas que são formadas e transformadas ao longo do tempo nas sociedades. Isso engloba instituições sociais, expressões artísticas, literatura, religião, língua, costumes e tecnologia.
Na sociedade atual, ainda é comum que o corpo da mulher seja tratado como um objeto, que pode ser utilizado, descartado e moldado segundo regras estabelecidas. Para manter esse controle, é crucial deixar claro quem detém o poder. Uma mulher que sofre uma agressão sexual carrega traumas que a acompanham para toda a vida, e o impacto é ainda mais profundo quando essa violência ocorre na infância.
Nas últimas décadas, muitos avanços têm sido conquistados na luta pela igualdade de gênero, ainda que estejamos longe de um cenário ideal. O empoderamento feminino, na essência, é a busca por autonomia sobre nossos corpos. Contudo, diante dessas conquistas, um movimento de ódio às mulheres vem se instaurando de maneira sorrateira na sociedade.
A indústria cultural, por sua vez, tem promovido um discurso que retrata a perda da essência feminina, associando a ascensão das mulheres ao poder a uma crise de identidade. Para reafirmar sua posição, homens de diferentes gerações são incentivados a exigir o cumprimento de padrões que perpetuam a dominação.
Não é raro ouvir comentários que responsabilizam as mulheres por sua própria segurança, como frases que insinuam que uma mulher “estava pedindo” por um ataque devido à sua vestimenta ou comportamento. Mesmo que essas declarações não remetam diretamente ao ato de estupro, elas alimentam um inconsciente coletivo que justifica a dominação e controle.
Essa retórica, frequentemente considerada inofensiva, fundamenta a ideia de que é preciso restringir e dominar. Em plataformas de redes sociais, em eventos religiosos que prometem “resgatar os valores familiares”, em palestras motivacionais ou até mesmo em transmissões de rádio, a cultura do estupro é fomentada, criando um ciclo vicioso que resulta em uma onda crescente de violência sexual.
Diante desse cenário, torna-se imperativo não apenas endurecer as leis e aumentar as punições para os agressores, mas também combater a mentalidade que precede esses atos. É crucial erradicar esse movimento que, diariamente, forma novas gerações de estupradores. A mudança deve começar na desconstrução de estigmas e na educação sobre respeito e igualdade.
