Explorando o potencial do Carnaval como fator de desenvolvimento e valorização cultural

Na última sexta-feira (06), o Ministério da Cultura (MinC) deu início, no Rio de Janeiro, a uma missão internacional voltada para pesquisar a relação entre o Carnaval, a economia criativa e o valor público. Com a economista mundialmente reconhecida, Mariana Mazzucato, à frente das discussões, a agenda começou com uma reunião na Prefeitura do Rio, reunindo gestores das áreas de cultura, economia e planejamento urbano.

Mazzucato enfatizou os desafios enfrentados pelos governos na distinção entre gastos e investimentos, especialmente no setor cultural. Para ela, as políticas culturais devem ser vistas como investimentos estratégicos, que oferecem retornos significativos tanto para a economia quanto para a sociedade como um todo. “O Carnaval mostra que cultura não é um custo, mas um investimento que amplia capacidades produtivas, fortalece o bem-estar coletivo e gera valor público ao longo do tempo. O custo de não investir é muito maior do que o custo de agir”, afirmou.

Nesse contexto, o Carnaval foi descrito como um laboratório vibrante de políticas públicas que consegue articular imaginação coletiva, desenvolvimento econômico e avaliação de impacto. Os efeitos dessa festa, segundo a economista, vão além da movimentação financeira imediata, abrangendo aspectos como pertencimento, formação cultural e fortalecimento das comunidades.

O encontro contou também com a presença de Cláudia Leitão, secretária de Economia Criativa do MinC, Roberta Martins, que é secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura do MinC, e Lucas Padilha, secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Todos concordaram sobre a importância de tratar o Carnaval como uma política pública abrangente.

Padilha destacou que, ao considerar o Carnaval como uma política pública, é possível integrar planejamento, dados e ações entre diferentes setores do governo. “Não se trata apenas de uma festa; é um sistema produtivo que opera durante todo o ano e precisa ser compreendido e fortalecido pelo Estado”, ressaltou.

A missão é fruto de uma colaboração entre o MinC e o Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP) da University College London, que Mazzucato dirige, e conta com a cooperação técnica da UNESCO. Estão previstas atividades no Rio, Brasília e Salvador, refletindo um esforço conjunto para reposicionar a cultura como um eixo estratégico para o desenvolvimento do país.

A singularidade da economia criativa brasileira

Um dos temas centrais discutidos foi a singularidade da economia criativa no Brasil, que se organiza de maneira diferente das cadeias industriais tradicionais. Mazzucato e os gestores presentes notaram que a economia criativa opera em redes territoriais e colaborativas ao longo do ano. Cláudia Leitão enfatizou a necessidade de políticas públicas que reconheçam essa complexidade. “Quando falamos de economia criativa, falamos da indústria criativa, mas também de uma economia territorializada, que opera anualmente por meio de canais que incluem samba, música popular, festas populares e, claro, o Carnaval”, destacou.

A reunião também sublinhou que o investimento público no Carnaval é, ao mesmo tempo, um investimento cultural, social e econômico. Ao envolver escolas de samba, blocos e comunidades, o Carnaval atua como um fator de circulação de renda, dinamizando a economia e fortalecendo a coesão social.

Roberta Martins, do MinC, acrescentou que esses investimentos devem ser vistos como parte de uma estratégia pública mais ampla, afirmando que “esse é um investimento na cidade que traz um impacto real. O samba, por exemplo, é um fator de mobilidade social e esses aportes representam uma reparação histórica em relação aos territórios onde o samba é cultivado”.

A informalidade e os desafios de mensuração

Outro aspecto abordado durante o encontro foi o desafio de medir a economia criativa e o Carnaval em um país com altos índices de informalidade. Os gestores municipais apresentaram dados sobre o impacto econômico do Carnaval, mas reconheceram que grande parte da produção cultural ainda não está registrada nas estatísticas oficiais.

De acordo com Mazzucato, as discussões no Brasil oferecem insights valiosos para o cenário internacional, já que o Carnaval é tratado não apenas como um evento, mas como uma política pública que articula economia, território e bem-estar social. “O Carnaval revela como a cultura pode funcionar como infraestrutura, organizando trabalho, produzindo capacidades, fortalecendo comunidades e gerando valor público ao longo do tempo”, concluiu.

Uma missão abrangente

A missão visitará o Rio, Brasília e Salvador, e será oficialmente inaugurada com a conferência “O valor público das artes e da cultura”, que acontecerá em Brasília no dia 09 de fevereiro e em Salvador no dia 10 de fevereiro. Essa iniciativa é parte de um esforço do governo brasileiro para reposicionar a cultura como um pilar estratégico no desenvolvimento nacional e no fortalecimento das capacidades públicas.

Sobre Mariana Mazzucato

Mariana Mazzucato é reconhecida como uma das principais economistas da atualidade. Ela ocupa o cargo de professora de Economia da Inovação e de Valor Público na University College London (UCL) e é Diretora Fundadora do Instituto de Inovação e Propósito Público (IIPP). Entre suas obras notáveis estão: “O Estado Empreendedor” (2013), “O Valor de Tudo” (2018) e “Missão Economia” (2021), que abordam a interseção entre o estado e o setor privado na busca por inovações e bem-estar social.

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