Treinamento Focado em Identificação de Sinais

A cada quatro minutos, uma mulher no Brasil é vítima de violência física, conforme dados alarmantes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Muitas vezes, os primeiros indícios desse problema surgem nos atendimentos médicos, mas acabam não sendo percebidos. Em resposta a essa realidade, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF) promoveu um treinamento destinado a capacitar profissionais de saúde a reconhecerem esses sinais e a acolherem adequadamente as vítimas.

Na manhã desta terça-feira (24), o auditório do Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) foi palco de uma formação voltada para a identificação e acolhimento de mulheres em situação de violência doméstica. A capacitação contou com a participação de equipes de diferentes áreas da assistência à saúde e teve como missão aprimorar a escuta e a capacidade de reconhecer sinais discretos que, frequentemente, passam despercebidos.

Identificando Sinais Silenciosos

A assistente social do IgesDF, Beatriz Sousa Liarte, que liderou a palestra, enfatizou que os sinais de violência nem sempre são evidentes no momento do atendimento. “É raro que a mulher chegue ao serviço de saúde relatando diretamente a agressão. Muitas vezes, suas queixas parecem desconectadas, mas uma análise atenta pode revelar uma situação de vulnerabilidade”, explicou.

Entre os principais alertas que os profissionais devem observar estão queixas inespecíficas, como consultas frequentes sem um diagnóstico conclusivo, dores crônicas sem explicação aparente, faltas recorrentes a atendimentos tanto da mulher quanto dos filhos, e a presença de parceiros com comportamentos controladores. Sinais relacionados à saúde sexual e reprodutiva, como infecções sexualmente transmissíveis repetitivas, lesões inexplicáveis, início tardio do pré-natal, dor durante a relação sexual e gestações não planejadas, também são cruciais.

“O corpo fala e muitas dessas manifestações são respostas ao abuso e precisam ser acolhidas com escuta ativa e responsabilidade profissional”, reiterou Beatriz.

Saúde Mental e Abordagens Empáticas

Além dos sinais físicos, a saúde mental também é uma área que merece atenção. Sintomas como ansiedade, depressão, estresse, insônia, dificuldades de concentração e comportamentos autodestrutivos podem estar relacionados à violência, exigindo uma avaliação integrada em um ambiente acolhedor. A abordagem correta é fundamental para garantir a segurança e o vínculo com a paciente. Profissionais são orientados a evitar perguntas que possam ser interpretadas como julgamentos e a adotar uma postura empática e acolhedora.

O primeiro passo no atendimento é garantir um cuidado integral à paciente, abordando suas necessidades imediatas, sejam elas físicas ou psicológicas. É essencial que todas as informações sejam registradas de forma cuidadosa no prontuário, incluindo anamnese, exame físico, condutas tomadas e encaminhamentos, assegurando a continuidade do cuidado.

A assistente social destacou a importância do preenchimento da ficha de notificação de violência, que integra esse processo, assim como a orientação para o registro de ocorrência policial. Contudo, essa abordagem deve ser feita com cautela, para não afastar a mulher do serviço de saúde.

Notificação Compulsória e Ações Futuras

Outro ponto abordado foi a obrigatoriedade da notificação compulsória dos casos de violência. Este procedimento consiste na comunicação às autoridades sanitárias e deve ser realizado mesmo quando há apenas suspeitas. A notificação é sigilosa e não tem caráter denunciatório. Nos casos de violência sexual ou tentativas de suicídio, o prazo para registro é de até 24 horas, enquanto situações de violência doméstica sem violência sexual devem ser notificadas em até sete dias, através do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).

Desde a promulgação da Lei nº 13.931/2019, os casos de violência contra a mulher passaram a integrar oficialmente a lista de agravos de notificação compulsória, fortalecendo as políticas públicas de enfrentamento e monitoramento. Uma nova edição da capacitação ocorrerá na próxima sexta-feira (27), também no HRSM, com o intuito de ampliar a participação de profissionais de outros plantões. A iniciativa é organizada pelo Núcleo de Educação Permanente (Nudep) em parceria com a Gerência de Gestão do Conhecimento (GGCON) e a Diretoria de Inovação, Ensino e Pesquisa (Diep).

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