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    Início » Cafés Especiais: Menos Estímulo, Mais Prazer e uma Nova Cultura no Brasil
    Cultura

    Cafés Especiais: Menos Estímulo, Mais Prazer e uma Nova Cultura no Brasil

    11/01/2026
    Cafés Especiais: Menos Estímulo, Mais Prazer e uma Nova Cultura no Brasil

    Uma Nova Perspectiva sobre o Café

    A relação dos brasileiros com o café vem passando por uma transformação significativa nos últimos sete anos, especialmente com a ascensão dos cafés especiais. Esse fenômeno está dissociado da visão tradicional da bebida e se conecta cada vez mais a uma experiência cultural enriquecedora. À medida que o país avança para o que é conhecido como a ‘Quarta Onda’, a ênfase se dá na personalização e na democratização do consumo, com foco em aspectos como sustentabilidade e tecnologia.

    Um exemplo emblemático dessa mudança é o Café di Preto, fundado em 2020 por Brandão, que busca valorizar os produtores negros na cadeia do café. Através de suas redes sociais, ele promove uma conscientização que relaciona o consumo de café à identidade e à história brasileira.

    “Eu não tinha conhecimento sobre a produção do café e seu papel cultural”, confessa Brandão. “Quando busquei referências de pessoas negras nessa história, percebi que a narrativa estava distorcida, com a população negra frequentemente associada apenas à escravidão e ao trabalho forçado nas plantações.”

    Além do Comodity

    Pesquisadores afirmam que a Quarta Onda ainda está em seus primeiros passos no Brasil, avançando a um ritmo mais lento que em países como Estados Unidos e na Europa. Um estudo recente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) revela que quase 60% do café consumido no Brasil corresponde às categorias Tradicional e Extraforte, que utilizam grãos de menor qualidade e cujos processos de torra são mais intensos.

    Esse modelo reflete diretamente no paladar do brasileiro. O café, ao passar por uma torra mais forte para esconder os defeitos dos grãos, torna-se mais escuro e amargo, criando uma preferência por sabores mais fortes. Em contraste, a torra dos cafés especiais tende a ser mais clara, revelando acidez, doçura e aromas únicos.

    Um Estilo de Vida em Ascensão

    Em 2024, os cafés especiais representaram apenas 1% do consumo nacional, conforme a Abic. Apesar desse número ainda ser modesto, a comunidade que aprecia esse tipo de café está crescendo e promovendo uma nova maneira de vivenciar essa bebida, especialmente através das redes sociais. “Estamos presenciando uma mudança cultural: a cafeína passou a ser mais uma pausa de prazer do que um mero estímulo”, diz Amanda Demetrio, barista e especialista em cafés especiais.

    Demetrio observa uma evolução no perfil dos alunos de seus cursos de formação sensorial. “Hoje em dia, muitos participantes não são apenas profissionais do setor, mas consumidores que desejam aprimorar suas experiências com o café”, relata. Desde que começou a dar aulas em 2022, ela notou que o número de inscritos dobrou a cada ciclo, mesmo diante do aumento dos preços do café.

    Educação Sem Esnobismo

    Alberto Sampaio, criador da Tábikòfi, uma cafeteria com torrefação própria no Rio de Janeiro, acredita que a expansão da Quarta Onda depende de um contínuo trabalho educativo com o público. O nome de seu estabelecimento, que significa “o café” em iorubá, reflete essa conexão com as origens.

    Sampaio comenta que muitos de seus clientes iniciam a visita com pouca informação e saem interessados em explorar cafés de diferentes regiões e perfis de torra: “Dividimos nossos clientes em três grupos: os que conhecem e os que não conhecem café de qualidade, e um terceiro grupo, os tough lovers, que são mais exigentes”, explica. Embora o último grupo ainda seja minoritário, o número de consumidores em busca de qualidade tem crescido rapidamente.

    “É fundamental educar sem esnobismo. As pessoas não precisam ter vergonha de pedir açúcar. No entanto, também explicamos como a experiência pode ser enriquecida ao experimentar o café puro, que revela complexidades de sabor”, completa.

    O Café como Ritual de Autocuidado

    Juliana Ganan, autora de “Por trás da sua xícara”, destaca que o café especial se tornou um símbolo de autocuidado para muitas pessoas. “Preparar um bom café se tornou um ritual”, afirma. “Esse momento de atenção plena, em que a pessoa escolhe o grão, mói e prepara a bebida, é um ato contemplativo que ajuda a desacelerar antes de seguir a rotina do dia.”

    Com uma década à frente da Tocaya Torrefadores de Café, localizada no sul de Minas Gerais, Ganan observa que as redes sociais desempenharam um papel fundamental na desmistificação do universo do café especial, tornando-o mais acessível e menos técnico.

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