O nascimento de um símbolo cultural em Brasília
Antes mesmo da inauguração oficial de Brasília, o Brasília Palace já cumpria um papel fundamental: receber autoridades e visitantes interessados em conhecer a nova capital do país. Fundado em 30 de junho de 1958 por Juscelino Kubitschek, o hotel completa 68 anos como um dos principais patrimônios históricos e arquitetônicos do Distrito Federal, carregando consigo a memória viva dos primeiros passos da cidade.
Projeto arquitetônico e importância histórica
Idealizado por Oscar Niemeyer às margens do Lago Paranoá, o Brasília Palace foi pensado para acolher chefes de Estado, engenheiros e arquitetos envolvidos na construção da capital. Segundo o gerente Peterson Brilhante, a escolha do local ocorreu em 1957, durante um voo de reconhecimento com Kubitschek e Niemeyer, e a obra foi concluída em apenas um ano. “O Brasília Palace carrega a história da capital desde o início. Ele foi pensado para receber quem vinha conhecer a nova cidade e continua preservando essa memória”, destaca.
O historiador Afrânio Gonçalves Castro, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), reforça a relevância cultural do espaço. Para ele, o hotel nasceu como parte integrante do projeto de Brasília. “Antes de haver cidade, era preciso haver hospitalidade para que o sonho de Brasília pudesse ser mostrado, negociado e legitimado diante das elites políticas e culturais do Brasil e do exterior”, afirma. “O Brasília Palace não hospedou apenas hóspedes; ele hospedou a própria construção da identidade nacional”, complementa.
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Eventos e protagonistas da cultura brasileira
Ao longo das décadas, o Brasília Palace recebeu figuras importantes, entre elas o presidente norte-americano John F. Kennedy, que visitou o local em 1960. O prédio também serviu como sede provisória da Embaixada americana. Além disso, foi palco do primeiro concurso Miss Brasília, cujo destaque retornou para a inauguração oficial da cidade e chegou a dançar com Juscelino Kubitschek nas comemorações.
O hotel também inovou na hotelaria brasileira ao instalar o primeiro sistema de ar-condicionado. A arquitetura modernista assinada por Niemeyer é enriquecida pelas obras do artista Athos Bulcão, que assina o maior afresco do salão principal e o painel de azulejos na fachada. Para Castro, “o Palace não preserva apenas a arquitetura. Ele preserva, também, a arte de Brasília, e as obras de Athos Bulcão fazem parte dessa identidade”.
Patrimônio artístico e musical
O restaurante Oscar, dentro do hotel, guarda uma homenagem especial: uma mesa reservada à memória de Niemeyer, mantida até hoje. Foi no Brasília Palace que Tom Jobim e Vinicius de Moraes apresentaram pela primeira vez a canção “Água de Beber” ao público. Em 1959, a dupla veio a convite de JK para compor “Brasília: Sinfonia da Alvorada”. A inspiração para esse clássico da música brasileira surgiu no próprio hotel, onde o piano permanece preservado.
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Desafios e restauração do Palace
Em 1978, um incêndio causado por uma cafeteira deixou parte significativa do edifício destruída, fazendo com que o hotel ficasse fechado por 28 anos. Esse episódio marcou a história do Palace como uma lembrança sensível dos primeiros anos da capital. O prédio foi adquirido pelo Grupo Paulo Octávio e, a partir de 2006, passou por uma restauração que respeitou o projeto original de Niemeyer, preservando seus elementos arquitetônicos e artísticos.
Desde então, o Brasília Palace voltou a receber hóspedes e visitantes, reafirmando seu papel como um dos cartões-postais mais representativos da cidade. Para o empresário Paulo Octávio, a recuperação do hotel foi um dos projetos mais desafiadores e gratificantes da sua trajetória, por representar um investimento na preservação da história de Brasília.
