A Transformação Através da Literatura
Natural de Salvador e atualmente radicada em Brasília, a professora Arlene Muniz representa um exemplo de resistência e compromisso com a educação e a inclusão. Ela é a segunda de oito irmãos e, em sua infância, enfrentou desafios que começaram com a forma como carregava seu material escolar, guardado em um simples saco de açúcar. Essa imagem poderosa não apenas ilustra suas dificuldades, mas também a força que a impulsionou a enxergar na educação um caminho para a transformação social.
Aposentada, Arlene dedicou quase três décadas à educação pública, atuando principalmente como coordenadora de professores de alunos surdos. Durante esse período, criou e disseminou jogos e brinquedos pedagógicos em Língua Brasileira de Sinais (Libras), além de desenvolver materiais em Braille, muitos deles elaborados em Gama, uma Região Administrativa do Distrito Federal. Sua atuação na educação inclusiva também esteve conectada à luta pela igualdade racial, com cinco anos de participação no Movimento Afrodescendente de Brasília (MADEB), onde criou jogos educativos que abordam a temática afro-brasileira.
A Arte como Ferramenta de Inclusão
A trajetória de Arlene é marcada pela presença constante da arte. Além de professora, ela é artesã, cordelista e xilógrafa, transitando com facilidade entre as palavras, a imagem e o ensino. É membro da Academia Inclusiva de Autores Brasilienses (AIAB), que se dedica à literatura acessível, e fundadora da Academia Gamense de Letras (AGL), onde ajudou a estruturar a sede e as atividades da instituição. Também integra o Coletivo Cultural Cordeliando, que realiza oficinas de cordel e xilogravura em todo o Distrito Federal, além de participar do Clube de Leitura Entrelinhas, que promove encontros em várias cidades da capital federal.
Na literatura, Arlene já contribuiu com dez coletâneas diferentes, incluindo uma que homenageia Paulo Freire. Com 17 cordéis educativos já publicados, todos acompanhados de xilogravuras de sua autoria, ela prepara mais cinco títulos para lançar. Arlene também é autora de dois livros infantis voltados para a inclusão, sendo o primeiro deles, “O Meguinho Sapeca”, uma obra que a lançou no universo da literatura infantil inclusiva e que recebeu menção honrosa na imprensa. O segundo, “Você pode”, foi lançado em dezembro de 2025, em parceria com sua filha, Reni Muniz, psicóloga. Este livro infantil reforça o compromisso de Arlene com a inclusão.
Colaboração e Acessibilidade nas Publicações
O mais recente trabalho de Arlene se destaca pela colaboração com jovens artistas. As ilustrações são de Luiz Eduardo, um adolescente autista, e os sinais em Libras foram desenhados por Lorrane, uma jovem surda e ex-aluna da escola pública do Gama, atualmente estudante de Letras-Libras na Universidade de Brasília (UnB). Para Arlene, essa escolha reflete a essência do livro: proporcionar visibilidade, protagonismo e acessibilidade a todas as vozes.
Com suas obras, Arlene já visitou 96 escolas, realizando contações de histórias, oficinas de Libras e atividades de sensibilização sobre a acessibilidade. O financiamento do Fundo de Apoio Cultural (FAC) possibilitou ampliar o alcance de seu projeto literário, que vai além de simples publicações e se torna uma ferramenta pedagógica e de formação humana, reafirmando o direito à diferença.
Entrevista com Arlene Muniz
Em entrevista, Arlene fala sobre seu mais recente lançamento e a importância da inclusão. O livro, conforme ela explicou, é ilustrado por um jovem com deficiência, reforçando a abordagem inclusiva que permeia toda a obra. “A história foi construída coletivamente, garantindo acessibilidade a todos os leitores”, disse ela.
Sobre sua produção literária, Arlene destacou que seus principais temas giram em torno da literatura infantil, sempre com o foco na inclusão através de Libras e Braille. “Meu objetivo é fazer com que crianças surdas tenham o primeiro contato com a leitura em sua língua materna, avançando para o português depois”, comentou.
Ela também mencionou como suas obras são usadas nas escolas e a importância de incluir Libras e Braille para enriquecer a experiência de aprendizado de todos os estudantes. “Os livros são utilizados em atividades pedagógicas, promovendo leitura, escrita e acessibilidade”, afirmou.
Arlene reforçou que o respeito e a inclusão precisam ser constantemente abordados nas escolas e que sua missão, como escritora, é democratizar o acesso à literatura e promover a valorização das diferenças. Sua jornada começou quando decidiu escrever histórias para sua neta, Giulia Leão, e desde então, ela tem transformado essa paixão em uma obra significativa e impactante.

