Impactos do Acordo no Agronegócio
O acordo entre o Mercosul e a União Europeia promete gerar efeitos expressivos na produção de diversos setores do agronegócio no Brasil. Segundo um estudo elaborado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os ganhos serão notáveis em quase todas as áreas do agronegócio, enquanto alguns segmentos da indústria enfrentarão perdas. Os especialistas Fernando José da Silva Paiva Ribeiro, Admir Antonio Betarelli Junior e Weslem Rodrigues Faria analisaram as consequências do acordo em sua pesquisa chamada “Avaliação dos impactos do acordo de livre comércio Mercosul-UE”.
Os dados indicam que o agronegócio brasileiro pode experimentar um aumento de 2% na produção nos próximos 16 anos, o que representa aproximadamente US$ 11 bilhões. Grande parte desse crescimento, cerca de 75%, estará concentrada em quatro segmentos: carnes de suínos e aves, outros produtos alimentares (incluindo pescado e preparações alimentícias), óleos e gorduras vegetais, além da pecuária. No entanto, nem todos os setores se beneficiarão igualmente. Por exemplo, as carnes de suíno e aves terão um incremento nas cotas de exportação, enquanto carnes bovinas, açúcar e arroz processado não verão mudanças significativas nas produções devido à baixa proporção que as exportações para a União Europeia representam no total nacional.
Expectativas da Indústria de Carne
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) corroborou as previsões do estudo, esclarecendo que, no caso da carne de frango, o novo acordo não altera os sistemas de cotas já existentes entre Brasil e UE. O que será acrescentado é a criação de uma nova cota tarifária dentro do Mercosul, totalizando 180 mil toneladas anuais isentas de tarifas, que será dividida entre os países do bloco. Esse contingente será estruturado em seis etapas anuais, permitindo um aumento gradual. Para a carne suína, o acordo introduz, pela primeira vez, uma cota tarifária preferencial específica para o Mercosul, que antes não existia para o Brasil, com uma cota final de 25 mil toneladas anuais e tarifas reduzidas significativamente.
Efeitos na Indústria de Transformação
Quando se observa a indústria de transformação, os resultados apontam para uma leve variação positiva na produção, com ganhos estimados em US$ 500 milhões. Apesar de quedas em setores como veículos e peças, metais ferrosos e artigos de vestuário, alguns segmentos, como calçados e equipamentos de transporte, estão projetados para crescer. O estudo indica que muitos desses setores, especialmente aqueles que produzem equipamentos eletrônicos e de transporte, têm a União Europeia como um importante mercado, e a nova parceria pode facilitar a conquista de espaço frente a concorrentes internacionais.
Comércio Exterior sob Nova Perspectiva
A análise do comércio exterior do Brasil revela que o acordo Mercosul-UE poderá gerar tanto a criação quanto o desvio de comércio. A expectativa é de que as exportações brasileiras para a União Europeia aumentem em 22,6%, atingindo cerca de US$ 10,2 bilhões. Contudo, essa expansão virá acompanhada de uma redução das exportações para outros membros do Mercosul, com uma queda de 3,3%, e uma diminuição de 0,5% nas importações do restante do mundo. As importações brasileiras da UE deverão crescer ainda mais, em 72%, enquanto o efeito colateral será a redução das importações de 11% do resto do mundo e 3,3% do Mercosul.
