Um Laboratório para Repensar o Espaço Residencial
A CASACOR Brasília 2026 encerra sua temporada no dia 12 de outubro, mais uma vez transformando a histórica Casa do Candango, localizada na 603 Sul, em um verdadeiro laboratório para repensar o morar contemporâneo. Em sua 34ª edição, a mostra reuniu 40 projetos assinados por 52 arquitetos, designers de interiores e paisagistas, sob o tema Mente e Coração. A proposta central foi refletir sobre o lar como um espaço de acolhimento, bem-estar e reconexão, especialmente em meio ao excesso de estímulos e à aceleração da vida cotidiana.
Diálogo entre Gerações e Disciplinas
Ao longo de dois meses, a discussão se desdobrou em diferentes escalas. Conceitos como neuroarquitetura, biofilia, memórias afetivas, materiais naturais, arte, tecnologia e integração entre os projetos formaram um vocabulário compartilhado entre propostas bastante distintas. A edição reuniu profissionais de diversas gerações: nomes já consolidados no circuito brasiliense, como Leo Romano, Walléria Teixeira, Miguel Gustavo, Hélio Albuquerque, George Zardo e Larissa Dias, dividiram espaço com novos talentos na mostra.
O Artesanato Ganha Espaço em Brasília
Talvez um dos movimentos mais interessantes tenha sido a valorização do feito à mão. Em uma cidade cuja imagem é profundamente associada ao concreto, à grande escala e à arquitetura modernista, esta edição trouxe fibras, palha, barro, cerâmica, madeira, tramas e outras técnicas artesanais para o centro dos projetos.
O projeto Feito a Mão Sebrae, de Rick Hudson, une residência e loja em uma curadoria dedicada a designers e artesãos do Distrito Federal. Entre os destaques está a coleção Nós, desenvolvida por Pé Esquerdo, Studio Jader Rodrigues e Instituto Ser Tão Fort, com luminárias, mesas e espelhos produzidos a partir de madeiras brasileiras e cordas feitas à mão.
Essa ideia ganha dimensão espacial em Entre, de Alex Claver e Wilker Medeiros, do Studio 2 Arquitetura. Com cerca de 150 m², o projeto abriga o chamado Altar do Feito à Mão, espaço dedicado às oficinas artísticas realizadas durante a mostra. Ao redor, obras de Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Vik Muniz e Siron Franco estabelecem um diálogo entre o artesanato manual e a arte contemporânea.
Outros projetos reforçam essa direção, como a Praça Raiz, de Ana Luísa Jardim, que destaca macramê, cordas náuticas, vasos de barro e um mural de Daniel Toys; o Espaço São Geraldo, da Tudo Arquitetura e Construção, que combina palha, barro e cobogó; e o Chalé Botteles – Terra e Fogo: A Casa é Cura, de Daniel Mendonça, que reúne cerâmica artesanal, pedras naturais, linho e couro.
O Cerrado como Inspiração e Material de Design
O cenário local deixou de ser apenas pano de fundo para se tornar elemento orientador nas escolhas de design. Vários projetos apostaram em espécies do Cerrado, adaptadas ao clima de Brasília e com menor demanda hídrica, aproximando o paisagismo das características naturais do território.
Exemplo disso é O Avesso do Chão, do Estúdio Solo, que ocupa cerca de 1.280 m² e foi concebido com espécies nativas adaptadas à estação seca. Copaíba, gueroba e outras plantas compõem um projeto que também reutiliza materiais de demolição: telhas são cortadas e combinadas com adobe para formar o piso.
O Aço Inox como Elemento Decorativo
Outra tendência observada foi a transformação do aço inox em elemento decorativo. Tradicionalmente associado a cozinhas e superfícies funcionais, o material apareceu em diversas propostas assumindo funções como prateleiras, bares, bancadas e peças de destaque.
No Espaço à Mesa, da M Rocha Arquitetura, o aço inox escovado aparece em uma prateleira de chapa metálica, combinada com concreto aparente, cortinas verdes e peças do design brasileiro. Em Vértice – Jetour Primavia Experience, de Fabiana Boner, um bar curvo em aço inox ganha aspecto quase escultórico, acompanhado por quartzo, madeira, concreto e vegetação.
A mesma lógica está presente em Construtopia – Espaço Brasal, do Studio Ark, onde o material convive com tapete amarelo, madeira e arte contemporânea, e no Loft Jade, de Alessandra Passero e Didacio Duailibe, que mistura aço inox, pedra natural, madeira e peças assinadas.
Residências que Convidam à Memória e ao Convívio
A edição também consolidou uma mudança na abordagem dos projetos residenciais. Quartos, salas, cozinhas e áreas de trabalho foram pensados como extensões da vida dos moradores, com espaço para memória, autocuidado e convivência.
Na Casa Deca, de Júlia Zardo e George Zardo, a sala, cozinha, lavabo, varanda e lareira formam uma sequência integrada com área externa, com uso de madeira, pedras, vegetação e tons terrosos. Em Living Carbon, de Eduardo Abdo, a memória familiar aparece na curadoria de obras de arte e peças de design, incluindo trabalhos da avó do arquiteto, Terezinha Abdo Tavares, em uma composição que reúne travertino, pau-ferro, couro, mármore e aço inox.
O refúgio também se manifesta na Suíte Origem, do Palloma Meneghello Arquitetos e Associados, organizada como espaço de autocuidado com formas orgânicas, iluminação indireta e materiais naturais. Já Two Universes, One Childhood, de Renata Dutra, adapta o quarto infantil às experiências de duas irmãs, enquanto o Lar das Três Marias, da ON Arquitetura, transforma uma coleção de luminárias de Luciana Canalli no ponto de partida para uma casa-estúdio.
Uma Conversa Entre Tecnologia, Memória e Materiais
Ao se despedir da Casa do Candango, a CASACOR Brasília 2026 deixa uma marca que se destaca. A mostra não abandonou a tecnologia nem a colocou como antagonista da sensibilidade. Optou por colocá-la em diálogo com o que dificilmente pode ser automatizado: memória, matéria, território, artesanato e as histórias que transformam uma residência em muito mais que um espaço construído.

