O reencontro do rap de raiz no Festival Elemento em Movimento
O domingo (6) em Ceilândia, no Distrito Federal, foi palco de uma celebração para os fãs da velha guarda do hip-hop brasileiro. O Festival Elemento em Movimento encerrou sua programação com uma noite que reuniu nomes importantes do rap nacional, entre eles Kirá e a Candangaria, Pratanes e Emicida. Contudo, o momento mais emblemático ficou por conta da apresentação da banda Câmbio Negro, que trouxe ao palco clássicos do gênero acompanhados por convidados especiais.
O show da Câmbio Negro foi um mergulho nas experiências acumuladas pela banda ao longo dos anos, mesclando elementos de rock pesado, samples de rap antigo, soul, break, além de referências culturais como candomblé e capoeira. A performance também se destacou pelo discurso contundente contra o racismo e a segregação territorial, questões muito presentes no contexto do Distrito Federal.
Ícones do rap nacional dividem palco e histórias
O vocalista ceilandense X convidou para o palco dois nomes históricos do rap brasileiro: Thaíde, que ganhou notoriedade na dupla com DJ Hum, e Zé Brown, pioneiro do hip-hop em Pernambuco. Em entrevista ao Brasil de Fato DF, ambos falaram sobre as origens do rap, suas influências e as transformações que o movimento sofreu ao longo das décadas.
Para a plateia, o encontro foi também uma aula de história. Viviane Ferreira, skatista, estudante de Letras e moradora de Ceilândia, destacou a força do espetáculo. “Foi uma chance de conhecer a trajetória do hip-hop e perceber que essa cultura está viva, pulsando forte na juventude local. O show reuniu artistas históricos com uma energia renovada”, avaliou.
Marcos Vinícios, fã de Thaíde & DJ Hum, Câmbio Negro e Faces do Subúrbio desde a década de 1990, levou o filho para assistir ao show. “Ver esses artistas que fazem parte da história do rap brasileiro compartilhando o palco foi um momento carregado de memória e representatividade”, disse.
Thaíde e a resistência dos bailes black
Originário da Zona Sul de São Paulo, onde começou sua trajetória nos anos 1980, Thaíde lembra que os bailes black representavam mais do que diversão para a juventude periférica. “Eles eram uma forma de resistência cultural. Estávamos ali para afirmar nossa presença, nossa relevância e para celebrar nossa cultura”, definiu.
Naqueles encontros, pessoas que muitas vezes não se conheciam formavam laços de amizade em meio à música e à dança. A transição dos bailes para o rap e o que viria a ser a cultura hip-hop foi natural, acompanhando a evolução das músicas e o interesse crescente das rádios alternativas. Thaíde recorda que esse movimento teve início com o que era chamado de “funk falado”, um precursor do rap, que logo ganhou espaço e identidade própria.
O cantor também relembrou o lançamento da coletânea “Hip-Hop Cultura de Rua” em 1988, marco importante para o rap nacional. O disco reuniu MCs, DJs, grafiteiros e b-boys que ajudaram a consolidar o movimento na cena paulistana, permitindo que vários artistas inéditos tivessem sua voz ouvida.
Zé Brown e a fusão entre hip-hop e cultura nordestina
Com 38 anos de carreira, Zé Brown começou no hip-hop em 1988, na comunidade do Alto José do Pinho, em Recife. Seu trabalho é conhecido pela mistura entre rap e manifestações típicas da cultura popular nordestina, como coco, embolada e repente, além de influências do rock e hardcore.
Brown destaca sua formação com mestres do coco, como Zé do Coco, e ressalta a importância dessas referências para sua música contemporânea. Atualmente, ele leva essa mistura aos palcos com o projeto “Zé Brown e o Coco Pesado”, que já o levou a festivais internacionais, como o Rio Loco, na França.
Além da carreira artística, Zé Brown atua como educador no Instituto Cultural Educacional Matéria Rima, em Diadema (SP), onde promove oficinas que usam o hip-hop como ferramenta pedagógica para fortalecer a autoestima e desenvolver habilidades como leitura e escrita entre jovens.
Em 2026, ele planeja lançar o álbum “Repertório Sagrado”, que contará com participações de artistas de diferentes gerações da música brasileira, como Lia de Itamaracá, Nando Cordel, Thaíde e Marcelo D2, mantendo seu compromisso com a cultura, a educação e o engajamento social.
O rap brasileiro hoje: continuidade e inovação
Para Zé Brown, a nova geração do rap tem à disposição uma tecnologia que facilita a produção e a circulação da música, permitindo misturas inovadoras entre gêneros tradicionais e contemporâneos. Ele cita exemplos como o Rapadura, que incorpora forró ao rap, e o Opanijé, que traz influências do Candomblé.
Ao mesmo tempo, observa que parte do rap atual mantém a veia crítica que marcou as gerações anteriores, abordando temas como violência policial, racismo e desigualdade social – questões que, infelizmente, ainda permanecem presentes na realidade das periferias brasileiras.
A trajetória de artistas como Thaíde e Zé Brown evidencia a riqueza e diversidade do hip-hop no Brasil, que segue se reinventando e dialogando com as diferentes regiões do país, suas histórias e desafios. O Festival Elemento em Movimento, ao reunir esses nomes em Brasília, reforça a vitalidade dessa cultura e seu papel na construção de memória e identidade.

