De espectador a protagonista: a trajetória de Prince Belofá no Favela Talks
Prince Belofá, rapper natural de Sobradinho, tem uma relação especial com o Favela Sounds. Ainda na adolescência, aos 16 anos, participou do festival como público, enquanto experimentava as batalhas de rima e buscava seu lugar no universo musical. Seis anos depois, ele retorna ao evento, agora como uma das atrações principais do Favela Talks, uma extensão do festival que destaca artistas locais e promove conexões com profissionais do mercado musical.
Para Prince, essa evolução representa mais do que uma mudança de posição no palco. “O Prince de 16 anos que pisou naquele baile pela primeira vez era só um garoto que estava tentando encontrar o que queria ser. Hoje eu sou um Prince mais maduro, eu sei exatamente o que eu sou, o que eu represento e o que a autoestima que eu coloco nas minhas músicas representa para outras pessoas”, reflete o artista em entrevista.
Origem musical e influência das batalhas de rima no DF
A música sempre esteve presente na vida de Prince, desde os sambas que seu pai ouvia em casa até o rap que conheceu por meio de um tio, que lhe apresentou grupos como Racionais MC’s. A partir dessa base familiar, ele encontrou nas batalhas de rima um espaço para construir sua identidade artística e ampliar sua circulação cultural dentro do Distrito Federal.
Morador de Sobradinho, Prince reconhece que, na adolescência, o acesso à cena cultural da capital não era fácil. As batalhas foram fundamentais para que ele conhecesse outras regiões administrativas, estabelecendo uma conexão com diversas comunidades do DF. “As batalhas de rima têm um processo de cultura e de democratização da cultura muito grande entre jovens periféricos. Indo para as batalhas, pude conhecer outras quebradas. Com esse movimento de rua, eu pude rodar o DF quase inteiro”, conta.
Sobradinho como referência e a diversidade cultural na formação artística
Sobradinho permanece como um ponto de referência na obra de Prince Belofá. Ele destaca a convivência local e manifestações culturais, como o Bumba Meu Boi de Seu Teodoro, como influências que ajudaram a moldar sua identidade. “Sinto que todo artista que vem de Sobradinho tem aquele ‘quê’ a mais, um borogodó. É uma quebradinha ao mesmo tempo muito tranquila, um lugar em que a convivência enriquece muito”, afirma.
Essa diversidade cultural, segundo o rapper, contribui para a versatilidade presente em sua música, que transita entre rap, funk, R&B e outras referências da música negra.
O álbum ‘NEGUINHO’ e a abordagem das múltiplas faces da palavra
O primeiro álbum de Prince, intitulado “NEGUINHO”, reúne essa diversidade sonora e temática. O título foi escolhido para dialogar com as experiências dos homens negros, explorando o significado multifacetado de uma palavra que pode variar conforme o contexto e quem a utiliza.
“Eu escolhi o nome ‘NEGUINHO’ para conseguir falar de e com os homens pretos de uma forma mais íntima. Todo homem preto já foi um neguinho”, explica o rapper, destacando a diferença no uso da palavra entre familiares, amigos e pessoas de fora.
Entre as faixas, “Postura” se destaca por abordar temas como ancestralidade, religiões de matriz africana e a mortalidade de jovens negros. Já “Palmiteiro”, parceria com o rapper local Aggin, é a preferida do próprio Prince.
Para compor o álbum, Prince reuniu influências que vão desde Jorge Aragão até nomes da cena contemporânea do Distrito Federal, como Isa Marques, Aqualtune, Layó, Marcelo Café e Nayê.
Favela Talks: espaço de visibilidade e fortalecimento da cultura periférica
O Favela Talks é uma conferência dedicada à criatividade periférica que integra o Favela Sounds. Voltado para a formação e geração de oportunidades para artistas, produtores e empreendedores das periferias do DF, o evento oferece mentorias, bancas de ideias, rodadas de negócios, showcases e debates sobre o mercado musical.
A programação musical do festival começou no Ordinário Bar & Música, com shows de Nelson Rufino, Breno Alves, DJ Jess Ullun e apresentações de Bárbara Silva e Deejay Ketlen. Nesta quinta-feira, as atividades seguem no Birosca do Conic, com shows de MU540 e showcases de Japão, Negraflow, Prince Belofá, DJ Jazz e Fehlix. A entrada é gratuita mediante retirada de ingressos pelo Shotgun.
Nos dias seguintes, a festa se concentra na Praça do Museu Nacional da República, com o Baile do Favela Sounds, que celebra os dez anos do festival. Entre as atrações confirmadas estão Gaby Amarantos, Puterrier, Kyan, Valesca Popozuda, Carlos do Complexo e artistas do Distrito Federal.

