Iniciativas e Pesquisas que Transformam a Saúde Feminina no Brasil
Discutir a saúde da mulher é, antes de tudo, abordar direitos fundamentais. É falar sobre o acesso ao rastreamento do câncer do colo do útero, a luta contra a violência de gênero, a promoção da saúde mental, a segurança alimentar, o envelhecimento digno e a autonomia feminina. Ao longo das últimas décadas, especialmente com a consolidação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM), a Fiocruz tem desempenhado um papel vital na produção de conhecimento, formação de profissionais e desenvolvimento de inovações que fortalecem o Sistema Único de Saúde (SUS) e ampliam o cuidado integral às brasileiras.
Em Brasília, a Fiocruz não espera apenas o Dia Internacional da Mulher para destacar sua agenda. As ações são contínuas, refletindo em pesquisas, projetos de intervenção e iniciativas formativas que analisam a saúde das mulheres sob diversas óticas: biomédica, social, cultural e territorial. Essa abordagem reconhece que as condições de vida têm um impacto direto no processo de adoecimento e no cuidado oferecido.
Do quilombo em Goiás às comunidades ribeirinhas do Médio Juruá, passando pelas periferias do Distrito Federal e pelas capitais que ainda carregam as marcas da escravidão, a saúde da mulher no Brasil apresenta uma diversidade de realidades e histórias. Entretanto, desafios como desigualdades sociais, racismo estrutural, violência de gênero e barreiras de acesso aos serviços de saúde são comuns.
Combate ao Câncer do Colo do Útero
Um dos focos principais da atuação da Fiocruz Brasília é a prevenção e controle do câncer do colo do útero, uma doença que continua a ser um sério problema de saúde pública no Brasil, especialmente em áreas com acesso limitado a serviços de saúde. Entre as iniciativas em andamento, destaca-se a Estratégia Integrada de Imunização, Rastreio e Tratamento de Câncer do Colo do Útero em Áreas Remotas, que visa aumentar o acesso à prevenção em regiões de alta vulnerabilidade social, como comunidades quilombolas e ribeirinhas.
Este projeto abrange a vacinação contra o HPV, o rastreamento por meio de autocoleta e teste de DNA-HPV, além de diagnóstico e tratamento, acompanhados de atividades de educação em saúde. Outras pesquisas estão focadas em novas abordagens para rastreamento e diagnóstico, como o Projeto MARCO, que investiga a eficácia e custo-efetividade de tecnologias de teste de HPV dentro do SUS, envolvendo milhares de mulheres de várias regiões do país.
A agenda de pesquisa também inclui vigilância epidemiológica e desenvolvimento tecnológico, com estudos sobre a variabilidade genômica de tipos de HPV de alto risco e investigação das desigualdades regionais na mortalidade por câncer do colo do útero. Um destaque é a criação da coleção ICervicais, um banco de imagens cervicais que auxilia na detecção automatizada de lesões pré-cancerosas.
Violência de Gênero e Proteção às Mulheres
A violência de gênero é um tema de grande relevância nas pesquisas da Fiocruz. O projeto Com Elas pelo Fim do Feminicídio reúne pesquisadores, movimentos sociais e instituições públicas para estudar fatores de risco, mapear iniciativas comunitárias e identificar lacunas na rede de proteção a mulheres e meninas no Distrito Federal. As metodologias participativas utilizadas, como escuta ativa e cartografias colaborativas, visam compreender as realidades locais e apoiar a formulacão de políticas públicas intersetoriais nas áreas de saúde, segurança, assistência social e educação.
Além disso, são oferecidas iniciativas formativas, como o curso “Quebre o Silêncio: enfrentando a violência de gênero e o feminicídio”, que capacita profissionais da Rede de Atenção Psicossocial.
Determinantes Sociais da Saúde
As pesquisas na Fiocruz Brasília também exploram a interação entre fatores sociais e históricos que afetam a saúde das mulheres. Estudos no âmbito da alimentação e nutrição examinam, por exemplo, a relação entre sobrepeso, condições de trabalho e saúde mental de mulheres negras em contextos de desigualdade. Outras investigações analisam como o racismo estrutural e as dinâmicas do cotidiano impactam práticas alimentares e trajetórias de saúde, gerando evidências que podem fortalecer políticas públicas mais justas.
Iniciativas como as Cozinhas Solidárias dialogam diretamente com mulheres, muitas delas negras e residentes em periferias, promovendo segurança alimentar, autonomia e fortalecimento comunitário.
Saúde Mental e Autonomia
Outros projetos investigam aspectos muitas vezes negligenciados da saúde feminina, como o impacto das condições de trabalho na saúde mental de profissionais do SUS que atuam em áreas vulneráveis. Pesquisas voltadas à promoção do autocuidado de mulheres vivendo com HIV, como o projeto Posithivas, utilizam estratégias de educomunicação para construir redes de apoio e fortalecer o protagonismo dessas mulheres na gestão de sua própria saúde.
Por meio da articulação entre pesquisa, inovação, formação e diálogo com os territórios, a Fiocruz amplia a compreensão dos desafios enfrentados na saúde das mulheres no Brasil. Essas iniciativas não apenas buscam gerar conhecimento, mas também apoiar a formulação de políticas públicas que promovam cuidado integral, equidade e justiça social, pilares essenciais para o fortalecimento do SUS e a garantia do direito à saúde para todas as mulheres.

